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Quando fizemos a entrevista com Tom Zé para o filme Palavra Encantada, ele nos contou sua teoria sobre a "creche tropicalista", ressaltando as babás-preceptoras que rondavam o recôncavo bahiano.
Acabamos não usando a fala no filme, mas navegando no blog dele, encontrei este diagrama que explica ainda mais o fato! Abaixo vai um trechinho do depoimento do Tom Zé para o filme e o diagrama da creche.
"Na creche que nascemos eu, Caetano e Gil, nós ficávamos - é importante isso, porque nós ficávamos grande parte da juventude, de zero aos três anos de idade - em muito contato com o inominável. Porque a criança era deixada no berço, ninguém ficava lá balançando nada pra ela, era deixada no berço, digamos assim, filosofando. E uma criança falava com três anos de idade, uma criança normal não era como hoje que fala com um ano de idade, uma criança normal falava com três anos de idade. Então esse tempo de contato, esse tempo metafísico, digamos assim, era uma coisa muito importante pra criação da gente, para o que ia acontecer. Porque quando a gente começasse a olhar em volta, a gente ia encontrar vários tipos de professores, do século XI, XII, X, IX...."
Na semana passada, tivemos a primeira exibição pública do Palavra Encantada, durante a FLIP em Parati. A primeira sessão foi somente para convidados e a reação muito calorosa, aplausos em cena aberta, todo mundo cantando as músicas do filme durante a projeção, um susto muito emocionante.
Sou desconfiado e crítico, pensei: "Ah, tinham muitos convidados, amigos na platéia, o champagne rolou solto no coquetel antes da sessão, isso deve ter ajudado".
Pois bem, no domingo, às 13hs, dia de sol, hora do almoço, fim de FLIP, e uma grande fila se formou do lado de fora da Casa de Cultura, dobrando a esquina. A sessão lotou e a reação foi igualmente calorosa, com aplausos de pé ao final.
Muitas pessoas vieram perguntar quando será o lançamento do filme em circuito, quando sairá o DVD, qual a próxima exibição... Estamos inscrevendo o filme no Festival do Rio, que ocorre em setembro, e ainda estamos negociando com o Distribuidor a data de lançamento. O mais provável é que o lançamento ocorra em março de 2009. Eu sei, eu também acho longe, mas isto é o que está se desenhando. Manterei este BLOG atualizado com notícias do filme.
Depois de muito tempo de trabalho, o Palavra Encantada vai ter sua primeira exibição durante a FLIP, em Parati.
Na quinta-feira, dia 03/07, haverá uma sessão especial para convidados da Livraria Saraiva, patrocinadora do filme.
No domingo, dia 06/07, às 13hs, vai ocorrer uma sessão aberta ao público. A entrada é um quilo de alimento não perecível.
Tudo isso vai acontecer na Casa de Cultura de Parati, na Rua Dona Geralda. Quem estiver por lá, apareça!
"Nada no bolso ou nas mãos - foi tirado diretamente da última página de As Palavras de Sartre: numa brincadeira comigo mesmo, eu tinha enfiado uma linha do que para mim era o mais profundo dos livros numa canção de circunstância."
Extraído do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso.
"Foi como nascer, como a experiência de ter Deus, fiat lux, a primeira emoção estética."
Tom Zé, sobre Os Sertões, de Euclides da Cunha.
Mais alguns dias, e o Palavra Encantada fecha a tampa, vai para a finalização e mixagem e depois disso é batalhar pelo lançamento, distribuição, mídia, festivais etc.
Desde a idéia-grão até hoje, passaram-se quase 3 anos. O primeiro impulso consciente de querer transformar a relação música-poesia em um projeto veio em 2005, mas hoje tenho a noção de que o tempo criativo não pode ser cartesianamente mensurável.
Vejo que o Palavra Encantada já se formava no banco de trás do carro do meu pai, ouvindo Matita Perê aos 8 anos de idade e achando lindo, sem absoluta noção de que aquilo era inspirado no universo de Guimarães Rosa.
Ele também estava ali, nas explicações da minha mãe sobre as letras de Chico Buarque e Caetano Veloso: "o cálice" que era "cale-se" e a poesia concreta das esquinas de Sampa.
Estava no meu avô, que a vida inteira dormiu de rádio ligado, inclusive nos dias em que dormia comigo no meu quarto.
Estava no caderno de violão da minha irmã que, com seus dedos tortos, tocava Lupicínio Rodrigues, Vinícius e os três hits que eu sempre pedia bis: Sá Marina, O Vira e Na Rua, na Chuva, na Fazenda. Isto devia ser 1984...
Estava na minha compulsão em comprar música brasileira nos dois anos que passei fora do país. Adolescente dramático, sentia-me exilado, e a música era a minha forma de voltar para casa.
Estava na descoberta de Antônio Cícero, em 1993, que chegava até mim pelo disco "O Chamado" da Marina, que trazia dois poemas primorosos, "Guardar" e "Eu vi o Rei Passar".
Estava no espanto de ver, pela primeira vez, Maria Bethânia em cena declamando Fernando Pessoa, no show Imitação da Vida e, mais ainda, nas inúmeras noites divertidas com Branca Lee (e a nossa unidade móvel Feitifilha) no Canecão.
Estava no Ciruladô, que eu achava que era de Caetano, mas é de Haroldo de Campos.
Acho que o que aconteceu em 2005 não foi apenas uma boa idéia e a vontade de se aprofundar nela, mas uma faísca que veio para dar forma a memórias afetivas. O Palavra Encantada nasce de sentimentos absolutamente sinceros. Talvez por isso, este projeto tenha atraído pessoas tão especiais, como a Helena Solberg e o David Meyer, que tiveram disposição para transformar amor à música em cinema. Amor compartilhado por pesquisadores de primeira grandeza, no sentido mais amplo do termo, como Julio Diniz, Fred Coelho e Heloísa Tapajós, e pela grande montadora e roteirista, Diana Vasconcellos, uma amizade-presente que quero cultivar para o resto da vida.
Não posso deixar de mencionar também a sensibilidade de pessoas como Vera Esaú, Ricardo Daumas, Simone Soares, Marcelo Cunha, Claudia Cordeiro e Elio Silva, que se identificaram com o projeto e nos ajudaram a viabilizar o filme em apenas um ano.
Terminar o Palavra Encantada é como fechar um ciclo de aprendizado que traz felicidade e deixa vazios. Com o vazio vem uma grande vontade de se apaixonar novamente por uma idéia, respeitá-la, cultivá-la e aguardar por uma outra faísca.










