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Blog Deu na telha

Ciclo

O Tiri nasceu no dia do furacão Andrew, 23 de agosto de 1992, na Flórida. E morreu hoje, 28 de novembro de 2008, carioca, em meio a uma outra tempestade que cai na minha janela, com ventos uivando.

Durante muito tempo, por conta do trauma de seu parto durante um furacão, ele não podia ouvir o vento uivando. Escondia-se atrás das cadeiras, pedia colo, não ficava quieto.

Uma vez, durante uma tempestade, e sem saber o que fazer para acalmá-lo, tranquei-o no meu banheiro, dentro da banheira, atrás do blindex. Acho que era o único lugar onde não havia barulho de vento. Fui dormir, e esqueci ele lá. De manhã, tudo mais calmo, ele latiu pedindo para voltar à liberdade. A gente se entendia bem.

Depois, quando fui morar sozinho, ele ficou com meus pais. E era uma festa chegar na casa deles, tocar a campainha e ficar 5 minutos correndo, brincando, antes de cumprimentar os outros membros da família. Ele fazia o circuito pela sala, saltava móveis-obstáculos, corria pela varanda, dava um 360º e começava tudo de novo. Só depois, ofegante, ficava abraçado comigo. Minha mãe chegava a ter ciúmes: "você faz muito mais festa para o Tiri do que para mim".

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De vez em quando rolavam os fins de semana do pai com Tiri e do Tiri com o pai. E lá ia ele em meio aos meus amigos a qualquer aventura que aparecesse. Velejava, topava ir em cima de uma prancha para passar a arrebentação da praia. Na verdade, topava tudo, desde que não o deixassem sozinho. Gostava de navegar na proa do bote, tomando vento. Estrada de janela aberta era das coisas que mais gostava. Adorava ver o rosto dele, pêlos voando, no espelho retrovisor direito do meu carro. Às vezes, a gente exagerava: Minha mãe já fez ele descer num escorrega que desembocava em um mergulho no mar! Acho que ele preferiria ter passado sem essa.

Tiri tentou suicídio várias vezes. Eu acho. Ou o que dizer de um cão que já rolou ribanceiras, caiu de muros, pontes, se jogava de um andar para o outro da casa sem pára-quedas? E sempre ficava um pouco desmaiado, se sacudia e voltava ao normal, depois de todo o susto e pânico na casa.

O Tiri não se chama Tiri. Em seu pedigree consta PRINCE ANDREW III, por conta do furacão. Eu batizei-o de PIRIRI, porque achava engraçado e queria um nome com bastante R's para que americanos não conseguissem pronunciar. Coisa de adolescente em território que, na época, era de Bush Pai. Me orgulhava em contar o significado desta palavra para os americanos estupefatos com um nome tão peculiar para um cachorro, que ainda por cima, era todo branco. A professora de biologia chegou a repreender a minha mãe na escola, por ela ter me autorizado a dar este nome ao cão! (?!!?!?)

Voltei pro Brasil e o nome PIRIRI começou a causar muita estranheza em certos círculos sociais. Daí começaram a leva de apelidos que desembocaram no sucinto TIRI (pronuncia-se como se fosse um britânico falando: Tidhhh). Piri, Piri-piri, Tiriquerido, Ticão... Só em broncas ou situações de perigo ele voltava a ser o Piriri.

Ontem fui ao veterinário visitá-lo. Falei: "Sou o dono do Piriri". E lá estava ele com soro preso na patinha, prostrado. Me reconheceu pelo cheiro, pois já não ouvia e via direito, levantou um pouquinho. Colei meu rosto no dele, como sempre gostei de fazer. Falei no nosso dialeto. Dei um carinho.

Hoje ele morreu. Deixou uma herança milionária por conta do processo que moveu contra Ana Paula Padrão por ela ter imitado seguidamente seus penteados enquanto esteve à frente do Jornal da Globo. Tchau, Tiri Querido, meu amigão que esteve comigo por 16 anos, mais da metade da minha vida. Já estou com saudades. Guardo no meu coração pra sempre as nossas histórias.


Por Marcio Debellian em novembro 29, 2008 8:06 PM | | Comentários (0)


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Marcio Debellian
Me formei em Economia na PUC-RJ em 1999, e logo depois cursei uma Pós Graduação em Marketing lá mesmo, no IAG. Fiz formação em Teatro na CAL e no Laura Alvim. Sou apaixonado por música desde sempre. Coisas de família: meu avô dorme de rádio ligado até hoje. Fundei a Debê em 2004. Fazemos consultoria em comunicação para grandes empresas. Palavra Encantada é meu primeiro trabalho com cinema. O próximo ainda está no papel.


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