Novos ''''trovadores'''' discutem se letra de música é poesia
Longa Palavra Encantada, de Helena Solberg, que deve entrar em cartaz em junho, reúne nata dos compositores brasileiros
Por Roberta Pennafort
Letra de música é poesia? O novo longa da cineasta Helena Solberg, Palavra Encantada, não responde a pergunta - nem se propõe a isso -, mas bota lenha nessa velha discussão. No documentário, alguns dos mais notáveis compositores brasileiros depõem sobre o assunto. Chico Buarque nega ser poeta e conta que se incomoda quando o classificam dessa forma. Paulo César Pinheiro acha que Chico faz, sim, poesia. Já Adriana Calcanhotto diz não ter tempo para este tipo de debate, o qual considera ''''infértil''''.
O filme ainda está sendo finalizado e deverá entrar em cartaz provavelmente em junho, mas Helena convidou o Estado para uma sessão prévia na quinta-feira, no Rio. É Adriana quem abre e fecha o longa. O ponto de partida são os trovadores provençais. A cantora e compositora gaúcha lembra Arnaut Daniel, considerado um dos maiores poetas de todos os tempos - depois citado também por Lenine. ''''Qualquer cara que canta o que compõe e faz uma crônica é descendente direto da figura do trovador'''', ele considera.
A divulgação da poesia por nossos cantores também é assunto de Palavra Encantada. Maria Bethânia, que há anos enxerta textos literários em seus shows (Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Ferreira Gullar e Lya Luft são alguns dos autores que ela declama), surge recitando Eros e Psique, de Pessoa. Lirinha, vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado, lembra João Cabral de Melo Neto e versos de Os Três Mal-Amados.
Grandes poetas-letristas, como Vinicius de Moraes, Waly Salomão, Hilda Hilst e Alice Ruiz, são citados por parceiros e estudiosos. Tom Zé, José Miguel Wisnik, Jorge Mautner, Ferréz, BNegão, Arnaldo Antunes, Antonio Cícero e Martinho da Vila, autores que transitam entre a palavra cantada e falada, são outros ''''personagens'''' do filme (a seleção desse time durou quatro meses e foi feita por um grupo de três pesquisadores).
As entrevistas são mescladas a imagens antigas preciosas, algumas raríssimas, como a da encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral, com músicas do então jovenzinho Chico Buarque, no Teatro Odeon, em Paris, nos anos 60, e Ismael Silva cantando e tocando Se Você Jurar.
Palavra Encantada nasceu de um projeto do produtor Marcio Debellian. Um amante da música brasileira, ele queria investigar o método de trabalho de compositores eminentes. E mais: descobrir como a literatura os impacta. Apresentada a Debellian por amigos, Helena logo se entusiasmou. Na época, a cineasta - que é formada em Letras pela PUC do Rio - estava lançando seu último longa (e primeiro de ficção), o premiado Vida de Menina (uma adaptação dos diários da garota Helena Morley, que viveu no século 19 em Minas Gerais).
''''Queria fazer algo poético, e não jornalístico, deixar as pessoas à vontade, criar intimidade. Elas já deram um monte de entrevistas falando sobre seu processo de criação'''', explica Helena, que pretende exibir o filme em escolas. A diretora de Carmen Miranda: Bananas Is My Business acredita que nunca vai abandonar os documentários, embora já tenha o argumento para o próximo filme de ficção - um projeto antigo, de dez anos. ''''Documentário é uma aventura, é feito na sala de edição, você aprende com ele. Não pode ter uma idéia preconcebida.''''










