Mais alguns dias, e o Palavra Encantada fecha a tampa, vai para a finalização e mixagem e depois disso é batalhar pelo lançamento, distribuição, mídia, festivais etc.
Desde a idéia-grão até hoje, passaram-se quase 3 anos. O primeiro impulso consciente de querer transformar a relação música-poesia em um projeto veio em 2005, mas hoje tenho a noção de que o tempo criativo não pode ser cartesianamente mensurável.
Vejo que o Palavra Encantada já se formava no banco de trás do carro do meu pai, ouvindo Matita Perê aos 8 anos de idade e achando lindo, sem absoluta noção de que aquilo era inspirado no universo de Guimarães Rosa.
Ele também estava ali, nas explicações da minha mãe sobre as letras de Chico Buarque e Caetano Veloso: "o cálice" que era "cale-se" e a poesia concreta das esquinas de Sampa.
Estava no meu avô, que a vida inteira dormiu de rádio ligado, inclusive nos dias em que dormia comigo no meu quarto.
Estava no caderno de violão da minha irmã que, com seus dedos tortos, tocava Lupicínio Rodrigues, Vinícius e os três hits que eu sempre pedia bis: Sá Marina, O Vira e Na Rua, na Chuva, na Fazenda. Isto devia ser 1984...
Estava na minha compulsão em comprar música brasileira nos dois anos que passei fora do país. Adolescente dramático, sentia-me exilado, e a música era a minha forma de voltar para casa.
Estava na descoberta de Antônio Cícero, em 1993, que chegava até mim pelo disco "O Chamado" da Marina, que trazia dois poemas primorosos, "Guardar" e "Eu vi o Rei Passar".
Estava no espanto de ver, pela primeira vez, Maria Bethânia em cena declamando Fernando Pessoa, no show Imitação da Vida e, mais ainda, nas inúmeras noites divertidas com Branca Lee (e a nossa unidade móvel Feitifilha) no Canecão.
Estava no Ciruladô, que eu achava que era de Caetano, mas é de Haroldo de Campos.
Acho que o que aconteceu em 2005 não foi apenas uma boa idéia e a vontade de se aprofundar nela, mas uma faísca que veio para dar forma a memórias afetivas. O Palavra Encantada nasce de sentimentos absolutamente sinceros. Talvez por isso, este projeto tenha atraído pessoas tão especiais, como a Helena Solberg e o David Meyer, que tiveram disposição para transformar amor à música em cinema. Amor compartilhado por pesquisadores de primeira grandeza, no sentido mais amplo do termo, como Julio Diniz, Fred Coelho e Heloísa Tapajós, e pela grande montadora e roteirista, Diana Vasconcellos, uma amizade-presente que quero cultivar para o resto da vida.
Não posso deixar de mencionar também a sensibilidade de pessoas como Vera Esaú, Ricardo Daumas, Simone Soares, Marcelo Cunha, Claudia Cordeiro e Elio Silva, que se identificaram com o projeto e nos ajudaram a viabilizar o filme em apenas um ano.
Terminar o Palavra Encantada é como fechar um ciclo de aprendizado que traz felicidade e deixa vazios. Com o vazio vem uma grande vontade de se apaixonar novamente por uma idéia, respeitá-la, cultivá-la e aguardar por uma outra faísca.











Que o universo de abençoe com mais e mais faíscas divinas! Os cartesianos agradecem! Bjs dourados!:o)