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Blog Deu na telha

Rita Lee e Ney Matogrosso Rita Lee_FotoHenriqueBadke.jpg
Foto: Henrique Badke

Janeiro começou com bons shows no Canecão. Ney Matogrosso com seu "Inclassificáveis", batizado a partir da música do Arnaldo Antunes (que, aliás, estamos usando no Palavra Encantada) e Rita Lee, com Pic-Nic, uma celebração de seus 60 anos, e uma bela revisão da carreira, com muitos sucessos e apenas duas músicas inéditas.

Nos dois shows, cheguei um pouquinho depois da primeira música, algo que muito me irrita, mas minha grande amiga Branca Lee estava com os ingressos (e síndrome de atraso), e não teve jeito, fiquei na porta do Canecão ouvindo o show ao longe e torcendo para que ela aparecesse logo.

O show do Ney Matogrosso trouxe de volta aquele clima "Secos e Molhados", muitas trocas de roupa, uma levada mais rock n roll, mas o repertório não me surpreendeu tanto. Adoro vê-lo em cena, mas não foi daqueles shows arrebatadores.

O show da Rita Lee me emocionou por vê-la em cena, não tão vigorosa como há anos atrás, mas em família, celebrando sua carreira, com uma certa nostalgia, mas uma nostalgia indiscutivelmente privilegiada. O Jamari França escreveu uma crítica um pouco dura no seu Blog no GLOBO online. Respondi e ele publicou meu comentário na íntegra.

Thumbnail image for Rita Lee _foto Cau Borges.jpg Foto: Cau Borges

Transcrevo abaixo as duas análises.


Enviado por Jamari França -
19/1/2008
-
12:47
Rita Lee faz estréia morna de Picnic no Rio

Rita Lee não tem nada a provar para ninguém. Sua turnê atual, Picnic, comemora 40 anos de relevantes serviços prestados à música brasileira. Mas, por obrigação profissional, não posso omitir que a estréia de duas semanas nesta sexta no Canecão foi de total e completa brochura ou como diz o refrão de sua nova música, "Tão" "chata chata chata". E por que assim tê-lo-ia sido, indaga o curioso leitor. Ela não estava numa boa noite. Sua verve afiada estava mais cega que o Stevie Wonder (why, I wonder), suas mãos tremiam, sua emissão estava precária em vários momentos. E a superbanda um desânimo burocrático total. Não se ouvia direito bateria e nem baixo, erros fatais num show de rock, e nem é o som da casa porque, na semana anterior, o som de Ney Matogrosso estrondou.

O show de Santa Rita de Sampa teve bons momentos no miolo, especialmente a apresentação histriônica de "Vingativa", do repertório das Frenéticas, com Rita ladeada por suas apetitosas vocalistas Débora Reis e Rita Kfouri em interpretação arrebatadora dos versos "Você fez de mim uma hipócrita/ Você fez de mim uma cínica/Você fez de mim uma mulher sem lar, uma malvada!/ Por isso eu sou vingativa, vingativa, vingativa/ Por isso eu sou vingativa, tenho até asco de você." Isso dançando e agitando leques vermelhos.

E ainda a versão para "I want to hold your hand", atribuída a Renato Barros, do Renato e Seus Blue Caps, em ritmo de forró, sobre o entrevero de um bode com uma cabra. Ela cantou "Roll over Beethoven" sem entusiasmo algum, com seu filho e guitarrista Beto Lee fazendo o passo do pato característico do autor, Chuck Berry, o pai do rock. E "Eu sou terrível", homenagem a Erasmo Carlos, que chamou de pai do rock brasileiro.

O cenário tem oito painéis de leds e um telão central. Quando todos atacam em uníssono o visual do show fica deslumbrante, mas eles são usados no mesmo ritmo do show, parcimônia total. UM bom momento é em vítima, quando ela veste sobretudo numa introdução noir e um helicóptero ronca no telão em meio a paisagens urbanas.

O começo do show tem grande impacto. A vocalista Débora reis, as belas e longas pernas em meias arrastão, sentada numa cadeira, faz mímica de ''Hey big spender'', do musical da Broadway ''Sweet Charity", esbanjando gostosura e esquentando a platéia - o lado masculino, pelo menos.
Mas aí entra Vó Rita e banda a meia bomba cantando "Flagra", "Jardins da Babilônia", "Mutante", "Bem me quer" e as novas "Dinheiro" e "Tão" esta um rockão que empolgaria se o som estivesse bom. Rita pouco falou, deu malhadas em Renan Calheiros, no estupro da presidiária no Pará e na queda do "Curintcha" para a segunda divisão: "Se 2008 for o mesmo filme de horror 'tamo' fudido," pragueja ela. Fez a média de sempre com o Rio, agora que é cidadã carioca, título que recebeu em maio passado, quer a capital de volta ao Rio. Brincou com seus 60 anos recém completados para se queixar de mazelas nos olhos, dor na perna e necessidade de usar um tarja preta se algum psiquiatra na platéia descolasse uma receita.

Se este país fosse sério, Rita Lee, à essa altura, poderia ficar curtindo sua netinha e uma deliciosa aposentadoria no seu retiro serrano nos arredores de São Paulo, indo para sua casa em Miami quando desse na telha e fazendo aparições esporádicas para receber as devidas homenagens. Mas ainda é obrigada a correr atrás do prejuízo e sair em turnê com uma notória fadiga de palco. No show, ela diz que paga para não sair de casa e ainda que dinheiro sempre lhe falta, daí tem que se submeter a esquemas de empresários tão antigos quanto espertos como Manuel Poladian. Coisas da vida...
Show de Rita continua neste sábado, 19, e sexta e sábado da próxima semana 25 e 26 de janeiro. Ingressos de 100 a 200 paus. Uau!

Salve a Vovó Sessentona

O leitor Márcio Debellian mandou um comentário sobre o show em que demonstra uma sensibilidade que eu não tive. A seguir, a íntegra.

Rita Lee Rolling Stones_João.jpg
Foto: João

Também estive na estréia de Rita, concordo que alguns momentos foram mornos, mas acho que faltam alguns aspectos na sua análise.

Em primeiro lugar, show de Rita Lee sempre deveria ter pista. Com ingressos a preços proibitivos, não faria nada mal ao astral do show ter as laterais como pista, com todos dançando e cantando junto.

Concordo que Rita não está na plenitude da sua forma física, nada mais natural aos 60 anos, 40 deles se jogando no rock n roll. No entanto, este clima mais "morno", como você disse, tinha algo de reflexivo, de passar a vida a limpo. Aquele final com ''Ovelha Negra'' e a projeção da discografia completa foi muito emocionante. A repetição seguida da frase "eu sou mutante" no começo do show, várias interpretações com o deboche característico tropicalista, e a projeção de uma foto sua com Sérgio e Arnaldo, mostram uma Rita afirmativa em relação ao seu posto na antológica banda. O resgate de Carmem Miranda, de quem Rita é grande fã, ao final do show também foi um belo momento.

Sim, ela está cansada, com dor no corpo, enxergando mal, precisando de uma tarja preta e pode desmaiar a qualquer momento, mas pode olhar pra trás e ver que tudo valeu a pena. Existe uma certa nostalgia no tom do show, e acredito que isso tenha sido uma escolha consciente. É o momento do artista se deparando com a idade e apresentando isso de forma generosa e verdadeira ao seu público. Tal qual o Ney - só que este literalmente - este show trouxe um certo despir da Rita, expôs fragilidades e isso me parece corajoso.

Não me empolguei, dancei e cantei como em outros shows da Rita, mas certamente me emocionei de uma forma diferente e nova. Não dá pra fazer uma análise levando em conta o vigor de anos atrás, a proposta do show era absolutamente outra.

Ver Rita Lee no Canecão é sempre um privilégio! Salve a nossa Vovó Sessentona!

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Por Marcio Debellian em janeiro 21, 2008 4:35 PM | | Comentários (2)


Comentários Enviados
Mel falou:

Oi! Adoro o nossa grande Rita e queria te parabenizar pela analise feita do show. Ainda nao tive a chance de vê-lo, gostei da sua sensatez, acho que é por ai mesmo... Ninguem tem 20 anos a vida toda ! Ela tem o direito de curtir e refletir sobre seus 60 anos de idade e os 40 de carreira e quem gosta dela, como você provou, vai se identificar, vai curtir ! Parabens e VIVA NOSSA VOVó SESSENTONA !!! Abraços.

Norma Lima falou:

Não existe Rita Lee morna, existe platéia que não está à altura dela.
Já está na hora desse país respeitar a Rita... passou da hora.
Odiei essa critica do Jamari e que bom que você teve mais sorte que eu, porque eu comentei, mandei e-mail e ele não me respondeu.

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Marcio Debellian
Me formei em Economia na PUC-RJ em 1999, e logo depois cursei uma Pós Graduação em Marketing lá mesmo, no IAG. Fiz formação em Teatro na CAL e no Laura Alvim. Sou apaixonado por música desde sempre. Coisas de família: meu avô dorme de rádio ligado até hoje. Fundei a Debê em 2004. Fazemos consultoria em comunicação para grandes empresas. Palavra Encantada é meu primeiro trabalho com cinema. O próximo ainda está no papel.


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