Arquivo de dezembro 2007
águia nordestina
a guiar meninos e meninas
como eu
comove-me vê-la
asas como velas abertas no céu
assistir teus partos
braços parcos barcos
lacrimejando portos
dando adeus
deusa d'água
iemanjá de cacimba
iansã iara minha irmã
curuminha cunhatã
meu coração
é uma cuia que transborda
um arco reteso
um bicho assustado de amor
um rumor de capim crescendo
águia nordestina
abre as asas sobre nós
meninas e meninos nus
ainda índios
para sempre teus
como filhos
novilhos
tordesilhos
mato adentro
mar afora
gotaquases
para sempre teus
Hoje chegou na minha casa um exemplar de "Dentro do Mar tem Rio", o último disco da Bethânia, que registra o show homônimo.
Fui ao show na primeira e na segunda temporada no Rio, então o repertório não foi a maior surpresa. O gostinho era poder ouvir tudo em casa, com calma, saborear as interpretações, arranjos, e ouvir e reouvir o Ultimatum, texto de Álvaro de Campos que é o ponto alto do espetáculo.
No entanto, logo ao abrir o disco, um susto no encarte. Um lindo poema de Chico César para Bethânia. Fez-me lembrar da primeira vez que fui a um show dela, Imitação da Vida, em 1996, um acontecimento que mudou a minha vida. Talvez o equivalente ao que toda uma geração diz sobre o "Chega de Saudade", do João Gilberto. Com a diferença que o espanto não era musical, mas dramático e poético.
Fui ao show "inadvertidamente", convidado por um amigo, sem fazer idéia da força de Bethânia no palco, e muito menos que o espetáculo era todo costurado por textos de Fernando Pessoa. Duplo-impacto, soco no estômago, luz na alma. Tive que voltar ao show no dia seguinte, comprar obras completas de Pessoa, mergulhar naquele universo que me chegou pela música. Daquele dia em diante, passei a ser mais um menino guiado pela águia nordestina.










